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Home Notícias Texto curatorial da exposição Vento

6 nov 2020

Texto curatorial da exposição Vento

Vista da obra  <i>Wind</i> [Vento] (1968), de Joan Jonas na exposição Vento. Foto: Levi Fanan/ Fundação Bienal de São Paulo
Vista da obra Wind [Vento] (1968), de Joan Jonas na exposição Vento. Foto: Levi Fanan/ Fundação Bienal de São Paulo

A 34ª Bienal foi concebida como uma espécie de ensaio aberto, uma exposição em processo. Os trágicos acontecimentos dos últimos meses trouxeram mudanças significativas na coreografia imaginada inicialmente, mas também reforçaram a pertinência de uma mostra constantemente em construção, que reflete sobre si mesma publicamente. A distância entre as obras, muitas delas desmaterializadas, é o traço mais marcante desta etapa da Bienal, que convida o público a olhar não apenas para as obras, mas também para o espaço entre elas, e a ler nesse gesto uma ressonância poética da necessidade de se afastar dos outros e do mundo. Ao mesmo tempo, confiar que poucas obras irão preencher um espaço tão grande é apostar na capacidade da arte de reverberar infinitamente, o que a torna uma ferramenta insubstituível para enfrentar e superar momentos sombrios como os que vivemos. 

Em seu filme Wind [Vento], a artista norte-americana Joan Jonas registrou os esforços de um grupo de performers para executar uma coreografia na praia de Long Island, em Nova York, em um dos dias mais frios de 1968. Em uma combinação de movimentos ora banais ora enigmáticos, que transitam entre ritual e improvisação, os dançarinos lutam contra o vento, que se impõe violentamente sobre seus corpos. Evidentemente, não era um dia fácil para dançar. Também não era um ano qualquer, e a obra de Jonas, de maneira indireta, talvez aluda mesmo ao vendaval de revoltas e transformações que lufava em boa parte do mundo. O que é certo é que o filme não retrata apenas a performance, ele retrata o vento: o papel dos dançarinos, nesse sentido, é tornar o vento visível. Às vezes é preciso colocar algo no vazio para que ele se revele cheio. Cheio de coisas que não podemos tocar ou segurar em nossas mãos; coisas de que não chegamos a entender a origem ou o funcionamento, mas que definem e regulam a nossa vida, a alimentam e a nutrem. Ou, como uma rajada de vento, a embaralham e a confundem.

Como dizia Édouard Glissant, não há começo absoluto. Os começos fluem de todo lado, como rios em errância, essa exposição funciona, então, como um ponto de inflexão e sinaliza um ajuste de rumo, não uma interrupção ou mesmo o início de um movimento. Glissant também falava de eco-mundos: mundos feitos de ecos e que, como quase tudo em sua poética, estão em constante transformação, até não sabermos mais onde cada palavra se originou, num processo incessante de crioulização e fertilização. O vento carrega o eco, que é ao mesmo tempo a lembrança do que foi dito e sua reverberação futuro adentro. Vento, analogamente, funciona como o índice desta edição da Bienal, no sentido de que aponta alguns dos temas que voltarão expandidos na exposição de setembro do ano que vem, e ao mesmo tempo se refere ao que já aconteceu, assim como o índice constitui, em semiótica, o rastro. 

A obra Insurgencias botánicas [Insurgências botânicas] foi mostrada pela primeira vez na abertura da 34ª Bienal, há alguns meses, e passou a simbolizar, com sua ênfase no processo ininterrupto de transformação de tudo que é vivo (de uma planta a uma cultura), a estratégia curatorial de conceber a mostra como processo e não como algo cristalizado ou fixo. A luz de novembro não é a mesma de fevereiro; agora cantos tikmũ’ũn ressoam ao redor das plantas, que cresceram, murcharam e voltaram a crescer; a estrutura de policarbonato que delimitava o espaço foi desmontada e parte dela apareceu no térreo, para marcar a entrada desta exposição. Fora daqui, evidentemente, as coisas mudaram ainda mais. Mostrar as mesmas obras mais de uma vez, em contextos e momentos distintos, é enfatizar que nada permanece idêntico: nem uma obra de arte, nem quem olha para ela, nem o mundo ao redor. As obras funcionam, nesse sentido, como os gestos dos performers em Wind: têm sua lógica e sua especificidade, são nós de poesia, raiva, memória ou resistência, mas também nos ajudam, simplesmente, a enxergar o que está ao redor, a tocar e ver, se é que isso é possível, o espaço que nos separa e o vento que passa entre nós.

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