por Raíssa Armelin Lopes
A Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (BIA), hoje um dos principais eventos a suscitar reflexões sobre a cultura arquitetônica e o espaço em que habitamos, teve sua criação durante um dos capítulos mais sombrios da história do país: os anos de chumbo¹ da ditadura militar (1964-1985). Repleto de contradições e dominado pelo medo e pela coerção política, o momento em meio ao qual a 1ª BIA foi organizada envolveu diversas instituições, articulações e certa resistência.
Antes, a Bienal de São Paulo era responsável pela Exposição Internacional de Arquitetura (EIA)², que reuniu arquitetos e público com a arquitetura moderna nacional e internacional durante vinte anos (1951-1971). Foi criada no contexto do pós-Guerra, sob influência dos Estados Unidos e através da atuação de uma elite intelectualizada³, predominantemente paulista e promotora do moderno. Seu envolvimento com o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York conferiu a ela destaque internacional desde a primeira edição, em 1951.
Naquele momento, a arquitetura brasileira era divulgada no mundo todo⁴, mas sua inserção na programação de uma Bienal foi pioneira. A EIA acompanhou⁵ o crescimento e a consolidação⁶ da Bienal de Arte e promoveu concursos entre escolas de arquitetura, levou o tema ao público geral, destacou o modernismo, permitiu trocas com os demais países latino-americanos e aproximou arquitetos cariocas e paulistas.⁷

A EIA manteve uma estrutura semelhante ao longo do tempo. Foi composta por áreas para cada país participante exibir sua arquitetura; por salas especiais, nas quais prestava-se homenagem a determinado arquiteto ou projeto; pelo encontro de estudantes; e pelo concurso de escolas. Contava também com um júri internacional, que elegia os projetos a serem premiados, entre os profissionais e no concurso de estudantes.
Na década de 1950, divulgou a arquitetura moderna internacional e abordou a relação entre arte e indústria e temas relacionados aos primeiros Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM).⁸ A partir da 6ª EIA (1961), houve maior envolvimento do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e de entidades representativas profissionais pelo mundo, encarregadas da seleção dos trabalhos a serem expostos. Essa medida expandiu e diversificou a exposição, que passou a expressar tendências de revisão do projeto moderno, visíveis no cenário mundial.
Com o fim do vínculo entre o MAM-SP e a Bienal de São Paulo em 1962, o empreendimento passou por uma difícil transição e, com a criação da Fundação Bienal, passou a contar com financiamento estatal.⁹ As dificuldades se intensificaram a partir do golpe de 1964 e da consequente interferência do Estado e de seus agentes. Foi notável a progressão do caráter oficial¹⁰ na Bienal e na EIA.
Os reveses desse período levaram ao encolhimento da EIA. A participação internacional diminuiu e a exposição exibiu apenas o concurso nacional de estudantes, com patrocínio do Banco Nacional da Habitação (BNH). A Bienal desse tempo foi dobrada aos interesses de um regime que perseguia de forma ativa os artistas, e contraditoriamente patrocinava seu evento mais representativo.
Com o agravamento da ditadura, a crise se aprofundou. Desde o golpe, a condição de representante do poder dominante adquirida pelo evento se intensificou, e a perseguição aos estudantes, aos artistas e aos intelectuais levou a uma onda internacional de protestos que alcançaram a Bienal de São Paulo. O posicionamento dos artistas perante a situação se dividiu em duas vertentes: aqueles que aderiram ao boicote como forma de protesto contra a ditadura; e aqueles que acreditavam na participação como forma de resistir, de garantir aquele espaço de expressão e de defender a liberdade da arte.¹¹

O boicote à 10ª Bienal, em 1969, foi efetivo, e o patrocínio do BNH adquiriu destaque na EIA. Com o pretexto de representar o envolvimento dos arquitetos nas obras nacionais de grande porte, o banco apresentou o Plano Nacional da Habitação e projetos que atendiam aos interesses das grandes construtoras.¹² Eram projetos produzidos em série, com condições precárias e baixa qualidade. A crise e o boicote foram o estopim para a reformulação da Bienal. Críticos foram mobilizados e, entre outros pontos, decidiu-se pelo encerramento da EIA e pela criação de um evento apenas para a arquitetura, anunciado oficialmente na 11ª e última EIA, em 1971.
Enquanto a 11ª Bienal se dedicou a uma retrospectiva de seus vinte anos e comemorou de forma antecipada o cinquentenário da Semana de Arte Moderna de 1922, a última EIA ocupou uma pequena parcela do terceiro piso do Palácio das Indústrias e apresentou certas características que se estenderam à 1ª BIA. Mantendo sua estrutura característica, a 11ª EIA foi coordenada por Oswaldo Corrêa Gonçalves, também responsável pela 1ª BIA; apresentou seminários na temática da paisagem e da cidade industrial, que se alinharam ao tema O ambiente que o homem organiza, da 1ª BIA. Seu espaço expositivo foi dominado por obras promovidas pelo Estado, evidenciando a participação do BNH.
No ápice dos terrores praticados pelo regime, com muitos dos arquitetos e intelectuais presos ou em exílio e uma parcela envolvida na luta armada, e com a crescente demanda por projetos decorrente da expansão da indústria da construção civil, o campo da arquitetura no Brasil enfrentava mudanças complexas, que englobavam questionamentos sobre seu papel social,¹³ transformações nas relações trabalhistas e reformas no ensino.¹⁴
Alguns arquitetos encararam a criação de sua Bienal como oportunidade para debater tais questionamentos. Do ponto de vista do Estado, uma Bienal inteiramente dedicada à arquitetura representava uma oportunidade de destaque para a propaganda ideológica, além de maior visibilidade às grandes empresas de construção civil, grandes beneficiárias do regime. Ao ocupar o mesmo pavilhão que abrigava um dos maiores eventos culturais do mundo, apresentava ainda o potencial de elevar tais projetos à categoria de obras-primas e, ao se apropriar de um dos eventos mais representativos dos arquitetos, mostrava a possibilidade de enfatizar o aspecto artístico da atuação do arquiteto, em detrimento do aspecto técnico e social defendido pelos profissionais.¹⁵
O processo de planejamento e organização da 1ª BIA levou mais tempo que o esperado: no início, foi anunciada para 1972, mas inaugurada apenas em 1973. Um protocolo de intenções e um convênio foram firmados entre o IAB, a Fundação Bienal e o BNH, o que resultou em um Conselho Diretor composto por um representante de cada instituição: Eduardo Kneese de Mello (IAB), Oswaldo Corrêa Gonçalves (Fundação Bienal) e Mário Torquato Pinheiro (BNH).

Da esq. para a dir.: Mário Pinheiro (BNH), Miguel Pereira (IAB), Emílio Garrastazu Médici, Ciccillo Matarazzo e Oswaldo Corrêa Gonçalves. © Arquivo Histórico Wanda Svevo / Fundação Bienal de São Paulo
A programação da 1ª BIA foi composta por cinco seções principais e um seminário: as salas especiais, que homenagearam Lucio Costa, Burle Marx, Artigas, Joaquim Cardozo, Flávio de Carvalho, o IPHAN¹⁶ e o IBDF¹⁷; a Exposição Internacional de Projetos, subdividida entre Arquitetura, Urbanismo, Desenho Industrial e Programação Visual, com a participação de 22 países e salas hors-concours dedicadas à Argélia e à União Soviética; a Exposição Internacional de Escolas de Arquitetura; o Simpósio Nacional de Escolas de Arquitetura; a extensa exposição de entidades públicas e privadas, intitulada “Grandes projetos nacionais”; e um seminário sobre controle ambiental.
Ao examinar o projeto expositivo da 1ª BIA, nota-se que foi marcado por articulações que resultaram em uma exposição de contradições: em meio a uma ditadura que se justificava pela luta anticomunista, o Pavilhão da Bienal dedicou salas especiais à arquitetura soviética e argelina; o Estado que havia imposto um currículo mínimo aos cursos de arquitetura, que enfatizava o caráter artístico da profissão, promoveu por meio dessa Bienal sua face técnica; o país que reprimiu de forma tão dura seus estudantes realizou o evento que possibilitou o primeiro encontro de estudantes desde os massacres de 1968; o governo que, em 1972, negou os impactos da expansão industrial e urbana na 1ª Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, adotou na Bienal de Arquitetura de 1973 a temática do ambiente, e de forma simultânea exibiu imagens que inevitavelmente evidenciaram os impactos da construção da Transamazônica.

A história da profissão do arquiteto, em especial no Brasil, está conectada de forma intrínseca à política¹⁸ e aos interesses econômicos, ao mesmo tempo que se insere no quadro artístico e cultural. A EIA e a BIA foram representativas desse amplo papel da profissão, e refletiram grande parte de suas questões mais candentes no país e, de certa forma, no mundo. A criação de uma Bienal inteiramente dedicada à arquitetura foi uma conquista para a comunidade de arquitetos no Brasil, apesar do momento de impasse em que ocorreu.¹⁹
¹ Os anos de chumbo representam o período de mais intensa violência praticada pelo Estado, aliada ao auge do uso do “orgulho patriótico” como arma ideológica de controle e a censura da imprensa. Delimitado inicialmente em 1968, com o massacre ao movimento estudantil e o decreto do Ato Institucional nº5, esse período perdurou até o momento em que Garrastazu Médici deixou o posto de presidente. Ver Hélio Gaspari, A ditadura escancarada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
² Devido a sua relevância e singularidade, a EIA é muitas vezes referenciada como “Bienal de Arquitetura”, apesar de ter adquirido oficialmente essa nomenclatura apenas na década de 1970, com a 1ª BIA.
³ A elite intelectualizada paulista formou-se a partir da crescente metropolização e consolidação do papel da cidade na economia e cultura nacionais. Relacionam-se a esse grupo a Semana de Arte Moderna (1922), a Casa Modernista (1930), a criação do MASP (1947), do MAM-SP (1948), da Cinemateca Brasileira (1949), do Teatro Brasileiro de Comédia (1948), da Companhia de Cinema Vera Cruz (1949), além de diversas galerias de arte e emissoras de televisão, responsáveis pela difusão artística e cultural.
⁴ A arquitetura brasileira era divulgada no exterior por meio de exposições e publicações, como a exposição Brazil Builds no MoMA em 1943, a participação do Brasil na Feira Internacional de Nova York de 1939-1940 e em edições de periódicos internacionais, como Architecture d’aujourd’hui, Architectural Review e Domus. Ver Lauro Cavalcanti, Moderno e Brasileiro: a história de uma nova linguagem na arquitetura (1930-1960). Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
⁵ Apesar da grande visibilidade, nota-se que a EIA enfrentou dificuldades ainda nas primeiras edições, que foram justificadas pela inviabilidade de acompanhar o intervalo da Bienal, devido aos diferentes tempos de produção.
⁶ O marco de consolidação internacional do evento foi a 2ª edição (1953), considerada uma das maiores exposições já realizadas na América Latina, graças à sua inclusão nas comemorações oficiais do IV Centenário de São Paulo.
⁷ Em 1953, com o projeto para o Parque do Ibirapuera; em 1957, com o vencedor do concurso para Brasília; em 1959, com a homenagem a Burle Marx. Ver Hélio Herbst, Pelos Salões das Bienais, a arquitetura ausente dos manuais: contribuições para a historiografia brasileira (1951-1959). São Paulo: Annablume, 2011. Paulo Lins, Arquitetura nas Bienais Internacionais de São Paulo (1951-1961). Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, 2008. Tese de doutorado.
⁸ Na década de 1950, a EIA demonstrou certo deslocamento em relação às discussões internacionais: enquanto traçavam uma retrospectiva do movimento moderno, os próprios encontros do CIAM criticavam e reformulavam seus princípios. Ver Elisabete França, Arquitetura em retrospectiva: 10 Bienais de São Paulo. São Paulo: KPMO Cultura e Arte, 2017.
⁹ Ver Francisco Alambert; Polyana Canhête, Bienais de São Paulo. Da era do museu à era dos curadores. São Paulo: Boitempo, 2004.
¹⁰ Inicialmente, esteve visível com a criação da Comissão de Honra com representantes do governo, que proferiam discursos nas cerimônias de abertura e premiação.
¹¹ Ver Caroline Schroeder, X Bienal de São Paulo: sob os efeitos da contestação. Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, 2001. Dissertação de mestrado.
¹² Ver Pedro H. P. Campos, Estranhas Catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988. Rio de Janeiro: Eduff, FAPERJ, 2017.
¹³ Empresas de engenharia, consultoria e planejamento cresciam de modo inédito, a elite industrial nacional e internacional era beneficiada em grande escala e os impactos atingiram não somente a paisagem, como também as relações trabalhistas dos arquitetos. Ao mesmo tempo em que esse profissional buscava consolidar seu lugar na sociedade, ao ver suas atividades em constante expansão, passou de modo progressivo a ocupar equipes multidisciplinares em empresas privadas e em autarquias públicas.
¹⁴ O ensino de arquitetura foi impactado pela ditadura: foram reduzidas as verbas do setor educacional em favor das indústrias de base, e a demanda por profissionais qualificados aumentou, o que exigia mais vagas no ensino superior. Tal conjuntura levou a uma reforma universitária, imposta pelo Estado em 1969, que priorizou a quantidade de formados em detrimento da qualidade do ensino com a implantação de um currículo mínimo que suprimia o caráter social intrínseco à arquitetura moderna e enquadrava as atividades desse profissional apenas no âmbito artístico. Ver Taiana Vidotto. A indissociável relação entre o ensino e a profissão na constituição do arquiteto e urbanista moderno no Estado de São Paulo. 1948-1962. Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual de Campinas, 2014. Dissertação de mestrado.
¹⁵ Ver Raíssa Armelin Lopes. Para além da exposição: o papel da 1ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (1973). Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo. Universidade Estadual de Campinas, 2022. Dissertação de mestrado.
¹⁶ Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
¹⁷ Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), que apresentou fotografias das obras da rodovia Transamazônica.
¹⁸ Arquitetura e Estado estiveram relacionados de diferentes formas ao longo do tempo. Com Gustavo Capanema e Juscelino Kubitschek, determinadas figuras individuais – como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa – destacavam-se como representantes da identidade brasileira na arquitetura moderna, então promovida pelo Estado. Ver Carlos Martins. Arquitetura Moderna em contexto: uma proposta de revisão bibliográfica. Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, 1998. Tese de livre-docência. No momento da criação da BIA, a relação com o Estado já havia se modificado de forma considerável. O incentivo à indústria de construção pesada durante a ditadura focou na quantidade, ao invés da qualidade, principalmente no início da década de 1970.
¹⁹ Agradeço à Unicamp e à Ana Goes Monteiro, que me orientou no mestrado que possibilitou o contato com a Bienal de Arquitetura e as múltiplas questões que fazem parte de sua origem. Agradeço também ao nosso grupo de pesquisa pelas inestimáveis contribuições.
Sobre a autora
Raíssa Armelin Lopes é arquiteta e urbanista, formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestre em arquitetura, tecnologia e cidade também pela Unicamp, sua pesquisa Para além da exposição: o papel da 1ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (1973) abordou questões relacionadas à profissão, ao ensino, à política e à cultura arquitetônica sob efeito da ditadura militar no país.
Este texto faz parte de uma série dedicada ao Arquivo Histórico Wanda Svevo, que completa 70 anos em 2025. Todas as imagens dessa série são ilustradas por fotos guardadas no Arquivo Bienal. Aproveite para conhecer a página do Arquivo e o seu banco de dados, sempre aberto ao público. A iniciativa tem apoio do Promac.
