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Home Conto De tratados descritivos e súbitas aparições

6 dez 2024

De tratados descritivos e súbitas aparições

Léo Tavares, <i>Aeaea</i> (detalhe), 2024. Assemblagem, técnica mista
Léo Tavares, Aeaea (detalhe), 2024. Assemblagem, técnica mista

 

por Natalia Borges Polesso

 

Diz-se de quem se esforça para não excluir nenhum detalhe no que faz; detalhista. A palavra do enigma era minucioso, mas a que o descrevia era metódico, quase intransigente. Achava que ser assim o tornava um artista. Há anos trabalhava com os mesmos materiais. Gramáticas antigas e palavras cruzadas. Cola, pincel, uma tesourinha bem amolada, alfinetes. Guardava os recortes em organizadores transparentes com pequeníssimos compartimentos categorizados. Depois, pinçava de lá frases exemplares e obsoletas, adivinhações e lacunas do jogo sobre pedaços de cartão. O efeito era mesmo impressionante. A paisagem, o cenário, a narrativa, o gesto e a intenção da personagem, o sentido se completava de um jeito muito particular; estabelecido pelo frame, conduzido, na cabeça da pessoa observadora. Num pequeno abismo da linguagem, a imagem se revelava. Era como se fabricasse fantasmas, que estavam, mas não estavam lá. 

Sentado em seu ateliê, Leonardo pensava com certa perturbação nas telas de um artista que tinha visto havia uns dias. Um homem segurando sua própria cabeça, duplos apalpando seus próprios corpos, figuras místicas e magnificamente humanas, pinceladas grossas e ao mesmo tempo muito sutis.

 

Fefa Lins, & se trans for mar eu rio, 2022. Óleo sobre tela, 116 x 77 cm

 

— Obscuras e fascinantes, técnica muito utilizada na pintura academicista do século 19, mas que se atualiza pela temática de representação dos corpos trans, da poética de si, e pelas distorções nas referências iconográficas, alegorias na história da arte – disse em voz alta, enquanto comia, como se ainda estivesse na sala de aula. – É isso que a arte tem que fazer – apertou os olhos e suspirou, enquanto lambia os lábios – uma das coisas que a arte tem que fazer – ponderou, mas não concluiu.

Suas pálpebras subiram e a imagem de uma mulher surgiu na sua frente. Levou um susto. Arrastou a cadeira de lado.

— Quem é você?

— Oi, Leonardo, sou Morgana.

— Morgana?

Leonardo reconheceu aquele nome em sua voz e, pouco a pouco, também o rosto, os cabelos, a palidez em contraste com a boca corada. A mulher não sorria. Também não tinha uma aparência hostil. Leonardo se lembrou como tantas vezes na infância tinha usado um blusão de lã enfiado na cabeça para imitar os cabelos de Morgana, quantas vezes não havia se enrolado num lençol e corrido escondido no pátio atrás da casa, imitando a mulher que lhe aparecia nos sonhos. E quantos cadernos teria guardado embaixo do colchão sem nunca ter mostrado a ninguém, repletos de suas aventuras. Naquele momento, não conseguiu dizer nada. Levantou-se e foi até a pia lavar o pote de comida. Passou um pouco de água no rosto. Quando se virou novamente, a mulher não estava mais lá. Leonardo soltou o ar que tinha prendido ainda no momento do susto, soltou pesadamente, e como bom hipocondríaco que era, sentenciou-se:

— Estou doido. Doido de verdade. Cansado demais.

 

Léo Tavares, Aeaea, 2024. Assemblagem, técnica mista

 

Pegou o celular e olhou o número da psiquiatra caríssima que tinham recomendado a ele quando os ataques de fantasmagoria começaram. Olhou para os quadros pendurados no ateliê e cogitou pagar a psiquiatra com um deles.

— Será que ela gosta? Cobriria algumas sessões e talvez algum remédio, se é que não estou condenado já – sacudiu a cabeça e gargalhou. – Nada… a hora é caríssima!

Leonardo passou um café, abriu o computador e foi responder e-mails. Quantas horas gastava sem receber um só centavo, respondendo e-mails, realizando burocracias, emitindo notas fiscais, escrevendo resenhas e críticas. Nada daquilo era fazer arte, mas tudo aquilo era ser artista. Recolheu um pequeno recorte que estava no chão. Linha de ação de uma obra ficcional, dizia. Estacou quando ao voltar seu rosto mais uma vez para o computador, leu a palavra CONVITE e logo: Congresso da melancolia. Abriu confuso. “Prezado professor doutor.” Pensou que se tratasse de uma piada ou de um convite para falar do seu livro, que tinha exatamente aquele título, mas não era. Era mesmo um convite para um congresso.

— Você vai?

Olhou para o lado e lá estava outra mulher.

— Quem é você agora?

— Como “quem”? Heloísa – tocou o peito com a ponta dos dedos e virou as palmas das mãos para cima. – E eu não vou nessa merda, quer dizer, se fosse o congresso da merda, eu iria.

A boca de Leonardo se abriu um pouco, mas nenhuma palavra veio. Agora tinha certeza, eram personagens suas que vinham lhe assombrar. Não se mexeu. Não queria que desaparecesse como Morgana, a marquesa dos sonhos, sua criação adolescente.

— Quer um café? – Tentou uma abordagem diferente.

— Como eu poderia, se sou produto de sua imaginação? Me diga você se eu quero.

— Mas você é tão real. Sinto que se eu esticar minha mão, poderei te tocar.

— Isso vai depender da sua capacidade alucinatória.

Leonardo não quis tentar. Mas não parou de olhá-la um segundo sequer.

— Você vai? – Ela perguntou de novo.

— De acordo com a lógica do meu próprio livro, nem que eu quisesse poderia ir. 

— É verdade.

— Além disso, estou muito ocupado, trabalhando em uma nova exposição. Gostaria de me ajudar?

— Claro, eu também sou uma artista.

— Eu sei.

— Sou uma artista com olhos tristes.

— Eu sei. 

— Sou uma artista indígena, você sabia?

— Não, isso eu não sabia.

A mulher ficou calada.

— No que está trabalhando?

— Na ideia de romance.

— Adoro quando artistas respondem que estão trabalhando numa ideia. É tão impossível.

— Estou compondo algo com a ideia de romance, digamos.

— Como forma?

— Também. – A mulher ficou calada e Leonardo, depois de aguardar em vão algum comentário, continuou. – Estou testando novos formatos também. Além de papel, tenho pedaços de madeira, dobradiças de metal, tecidos e alfinetes.

— Claro, sempre alfinetes.

— São como pequenas âncoras nas palavras, afundam seus significados.

— Afundam onde? Você não tem um texto de fato.

— É claro que tenho. – Leonardo se sentiu ofendido. – Eu tenho fragmentos de tecido que, em última análise, são textos, tramas, são um modo – parou. Se sentiu um pouco idiota. E se estivesse falando sozinho? 

— Não compreendo a madeira – olhou para uma das pequenas peças – as dobradiças são uma boa ideia, é como mostrar os vincos da narrativa, expô-los.

— Não tinha pensado nisso.

— Claro que você tinha pensado nisso, acha mesmo que eu sou outra pessoa?

— Não seja tão evidente, eu detesto.

— Tudo bem.

— Mas e a madeira?

— Densidade. Não sei. Estou experimentando. São novas aberturas para associações imaginativas, essas coisas.

— E o amor? Não se pode falar em romance sem o amor, a paixão, o frêmito. Você gosta de palavras velhas, não é? Estremecimento, movimento de oscilação ou de vibração que produz ligeiro ruído. O frêmito.

Leonardo desejou ter aquela frase num recorte pronto. Queria usá-la. Mas não tinha nem lembrança de um dia ter se deparado com tal construção.

— Gosto, mas eu não acredito que palavras envelheçam.

— E a obra de arte?

— Essa sim. – Leonardo abre um pouco mais seus olhos. – Agora entendi por que preciso de Morgana, ela é romântica. Assim, digo, romanesca, entende?

— Dramática? Você acha? Então por que sou eu quem está aqui?

— Porque você é cética e sarcástica, mas assombrada. E nesse momento, é de assombro que preciso, é isto que estou vivendo.

— Mas eu também posso ser assombrosa.

Leonardo se virou e lá estava Morgana. Vestia uma longa camisola branca de cetim, quase lembrava um lençol fantasmagórico. Heloísa vestia calça e camisa jeans largas e um avental de algodão grosso, sujo de tinta e de terra. Leonardo vestia uma camisa preta de botões, bermuda do mesmo tom, meias bege até a metade da canela e um sapato de vinil também preto, com uma tira de borracha laranja em cima. Três estranhas visões.

— Todas podemos – Heloísa disse.

— Quero que as duas fiquem.

— Isso depende mais de ti do que da gente – falaram juntas olhando para o homem.

Pegou a tesoura, recortou palavras. Sobre um pedaço de madeira, colou a imagem desenhada de um homem branco de maiô de banho listrado, com o cabelo bem engomado, acima dessa imagem colou um recorte de palavras: ninguém sabe. Abriu um pote de guache azul e misturou com branco até obter a cor que a parede da casa de sua infância tinha. Um azul velho, azul tiffany, gostava daquele nome e sorriu. Abriu uma caixa em que se multiplicavam pequenas divisórias e retirou de lá um recorte minúsculo que dizia: luz refletida pela lua. E depois, de outro quadradinho retirou mais um recorte. Agora uma imagem. Um barco com dois pescadores à frente e o material de pesca atrás. Um deles retirava um peixe para fora da água agitada. Deixou os dois pedaços de papel separados, eram menores que um selo. 

 

Léo Tavares, Uma história náutica, 2024. Assemblagem, tríptico. Foto: Amanda Goes

 

— Romances minúsculos – Morgana disse.

— São mesmo – ele foi até a janela do ateliê e acendeu um cigarro.

— Você ainda fuma?

— Não.

Deixou o cigarro queimar num cinzeiro. 

— É o tempo que a tinta leva para secar.

— Não é.

— É sim.

— Você ia fumar esse cigarro e não está fumando porque a pergunta te incomodou?

— Que pergunta? – Leonardo desdenhou.

— É bem verdade que não foi uma pergunta, Heloísa.

As duas concordaram, mexendo as cabeças sincronizadas.

— Do que estão falando? – perguntou mais uma vez.

— Dos seus romances, Leonardo. Minguados, diminutos. Veja aí. Essa exposição toda – apontou as pequenas peças.

— Mas é um grande enredo de pequenas fantasias. É sobre a forma burguesa do romance e a elucidação de seus pormenores. É sobre fronteiras e tensões. 

— Ai, sim, é sobre hibridismo, sobre ler e ver, é sobre um deslocamento do envolvimento tradicional do espectador da arte blá blá blá, Leonardo. Eu não acredito. Eu acho que é sobre você. É sempre sobre o artista.

—  Afe, me poupem. As pessoas acham que é sempre sobre a gente, mas não é.

— Tudo é autobiografia, até a mais desimplicada das desconstruções, Leonardo.

— Eu não concordo. – Parou um instante, mastigou algumas palavras e depois cuspiu – bem, sim, claro que a gente se implica. Isso faz parte do ofício. São as nossas questões para o mundo.

— O mundo é enorme, Leonardo. Você vai ao congresso?

— Que congresso? 

— Da melancolia.

— Não, estou numa fase mais eufórica da minha composição.

As duas se olharam. Olharam para os fragmentos do que o artista tinha denominado como romance. Se olharam de novo e ergueram as sobrancelhas ao mesmo tempo que comprimiram as bocas.

— Certo, estou numa fase mais eufórica da minha produção. – Olhou as peças e suspirou – Que é melancólica, sim, eu nunca neguei isso. Talvez por isso eu tenha ficado tão atormentado com as pinturas, existe ali um olhar para si muito genuíno, diante de um…

— Abismo – Morgana disse sorrindo e quase lhe tocando o rosto. – Você é um artista atormentado, querido, e não quer ligar para sua analista.

— Que bobagem! Essa vibe fim de século já passou duas vezes, ninguém tem tempo de ser atormentado desse jeito hoje, minha filha, a gente simplesmente é atormentado pela tristeza da precariedade, pelo capitalismo, pelo neoliberalismo, pelo Elon Musk – e parou – como figura, como metáfora do grande desatino, a Heloísa compreende. Não é que eu não queira ligar.

Leonardo foi até a janela e acendeu outro cigarro.

— Claro que a gente compreende. Mas um artista tem uma sensibilidade maior, não é todo mundo que junta restos e faz disso algo.

— Todo mundo que tá vivo está juntando restos e produzindo vida, artista ou não. É inevitável. Mas isso é uma perspectiva.

— Contraditória – Morgana disse.

— Evidente que é contraditória – disse irritado.

— Pois eu acho que a ideia de romance é justamente essa, produzir vida num pequeno mundo. Vida, desejo, felicidade e sofrimento.

— E gozo.

Disseram as mulheres.

 

Léo Tavares, Sem título (da série Os palácios), 2024. Assemblagem. 2024. Foto: Amanda Goes

 

Leonardo estava fascinado com suas projeções, ali pensou que talvez não precisasse mais da psiquiatra-analista. Pensou em se entregar ao absurdo, se entregar às produções de sua imaginação. Olhou pela janela e admirou a coloração dourada do clima seco de Brasília. O céu impossível. As cores exasperadas. Sobre a mesa, o romance estilhaçado, a personagem pronta para o gesto. Voltou ao trabalho. Morgana e Heloísa sempre observantes, como sombras fantasmáticas.

— Se eu fosse pintor – disse a si mesmo sem acreditar em qualquer palavra que viesse a seguir.

Leonardo posicionou a fotografia de um homem com os polegares sobre os olhos de uma pessoa que estava sentada a sua frente. Juntou alguns retalhos e foi ensaiando formas, sem que tivesse algo definido. Pescou um recorte do organizador, fortuito. Tu não te enxergas? Sorriu. A tela do computador se apagou, não iria ao congresso. 


Sobre a autora

Natalia Borges Polesso é escritora e tradutora. Publicou os livros Amora (2015), Controle (2019), Corpos secos(2020), A extinção das abelhas (2021), Foi um péssimo dia (2023), Condições ideais de navegação para iniciantes (2024), entre outros. Ganhou e foi finalista de diversos prêmios literários, como Jabuti, São Paulo, Açorianos e Minuano. Atualmente, é pesquisadora de pós-doutorado na PUC-RS.

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